“RN22 – O Silêncio na Fonte….
Primeira Pessoa: Conto

por Eric Oliveira Costa e Silva.
Em 1997, a fonte da vida se tornou fonte de medo. A água que saciava a cidade de Presidente Prudente estava ferida, envenenada por algo que ninguém sabia nomear. Quando os portões da mesma na FCT-UNESP se fecharam para conter a contaminação, um silêncio denso se espalhou pela cidade. Um nome começou a surgir nos corredores acadêmicos: RN22.
Eu era apenas um voluntário quando decidi mergulhar naquilo que chamavam de perigo. Disseram-me: “Espere pelo funcionário, ele trará os equipamentos de segurança.” Esperei por alguns minutos. Mas, na minha cabeça, cada gota perdida era uma sentença para a cidade. Quando ele chegou, sorridente e atrasado, eu não quis ouvir nada. Arranquei-lhe os aparatos das mãos e mergulhei fundo na abertura, em busca de uma amostra que poderia salvar milhares. Naquele instante, a ciência para mim não era teoria, nem mesmo um aparato simbólico surreal: era urgência.
Anos depois, no limiar do novo milênio, a verdade explodiu: toda a água potável da cidade de Presidente Prudente estava sob ameaça do RN22. Foi então que procurei duas professoras de Química. Coloquei sobre seus e-mails cálculos arraigados com desespero e esperança. Elas os analisaram em silêncio, depois se entreolharam com um brilho no olhar.
— Está aqui... — disse uma delas. — Você encontrou algo, uma delas me respondeu no e-mail.
Recebi delas não apenas a confirmação, mas a promessa: “Seu nome estará como colaborador.” Eu sorri, mas por dentro já sabia: não queria ser visto. Ataques surgiam, línguas afiadas tentavam me calar, e, para proteger a pesquisa e sua credibilidade, decidi desaparecer da história.
— Não é justo, — insistiu a mais velha. — A ciência não vive sem nomes.
Mas aceitei o anonimato. Hoje, uma delas descansa sob a terra fria. A outra... talvez ainda caminhe pelos corredores da FCT, carregando um pedaço de silêncio no bolso.
E que silêncio... Se você hoje buscar RN22 no Google, vai encontrar apenas ruídos desconexos: uma barreira da Endress+Hauser, uma interface de áudio Dante, ou até uma norma de mineração, a NR-22. Nenhuma linha sobre a fonte lacrada. Nenhuma menção à corrida contra o tempo. Nenhum traço daquilo que um dia foi a sombra mais densa sobre a cidade.
A filósofa Noelle Neumann chamaria isso de Espiral do Silêncio. E ela serve a quem? À burocracia? À vaidade acadêmica? À amnésia coletiva? Não sei. Sei apenas que um ponto da história foi arrancado das páginas, como se nunca tivesse existido.
Mas eu existi. Eu estava lá, na água turva, no cheiro químico que subia do fundo, na caneta que rabiscava fórmulas para salvar vidas. Não preciso mais do anonimato. Do meu canto quebrado, ergo os olhos aos céus e digo: obrigado à que se foi, e um abraço à que ficou.
Porque, se hoje bebem água limpa em Presidente Prudente, é porque um dia alguém ousou mergulhar no escuro.
Comentários
Postar um comentário